“Elementary”, meu caro Watson, essa série é FAIL.




Escrito Por: Rodrigo Basso

Séries de investigação policial estão entre as produções de maior sucesso no mundo hoje, vide a franquia CSI, Law&Order, Criminal Minds, NCIS, Bones entre outras, todas com no mínimo 8 temporadas, algumas chegando na 13ª. São séries que prendem os espectadores pelo mistério, o enredo empolgante que instiga a desvendar quem, como e/ou por que realizaram o crime, despertando a curiosidade em saber como tudo vai acabar. Essas séries têm como ancestrais os contos e romances policiais que inundaram o final do século XIX e todo o século XX, publicados, no início, em folhetins nos principais jornais e revistas dos EUA e da Europa. E, sem sombra de dúvida, o maior
representante deste gênero é o autointitulado consultor investigativo Sherlock Holmes do autor Sir Arthur Conan Doyle. Em 2011, a produtora britânica BBC estrelou uma ótima adaptação da obra de Conan Doyle para uma série chamada “Sherlock”, ambientando o famoso detetive na Londres de hoje. O esmero com que a série está produzida, atualmente com 2 temporadas e já prometida a terceira para 2013, agradou os fãs e é um sucesso indiscutível. Aproveitando a moda em alta, a CBS lançou a série “Elementary”, também ambientando Sherlock para os dias de hoje, mas atuando em New York. Enquanto a primeira é um exemplo a ser seguido, a segunda é um tratado sobre como NÃO adaptar uma obra para a televisão, sendo um desrespeito com a literatura britânica. Os erros são tantos que torna difícil enumerá-los. O mais gritante de todos é a transformação de Dr. Watson, médico militar com baixa do exército após ter sido baleado no ombro e que passa a morar com Sherlock para dividir as despesas, para a Dra. Joan Watson, cirurgiã que deixa a carreira após um erro que custa a vida de um paciente e que passa a morar com Sherlock como acompanhante médica contratada por seu pai. Essa simples comparação torna desnecessário qualquer comentário sobre a desfiguração realizada com o personagem. A transferência de Londres para New York também é um fator que desagrada os leitores dos contos e romances. Apesar de muitos estudiosos afirmarem que Sherlock deve ter vivido por um tempo nos EUA, o célebre detetive é um verdadeiro cavalheiro inglês, tornando-o deslocado na Big Apple. Outra estranheza do Holmes de “Elementary” são suas tatuagens que não combinam com a imagem de um cavalheiro. Além do fato que um gentleman não trataria uma mulher como esse novo Sherlock faz com a Watson: na literatura isso acontece, mas lá Watson é um homem, sendo seu comportamento mais facilmente aceitável. O tratamento dado à capacidade intelectual e de observação de Holmes na nova série é, no mínimo, desonrosa. Quando ele conhece a Watson, faz várias inferências sobre sua vida (algo recorrente nas obras literárias); questionado pela companheira, ele explica como chegou às conclusões, mas sobre a separação dos pais dela ele afirma ter pesquisado no Google, justificando que “nem tudo é deduzível”! É uma afronta para o criador da Ciência da Dedução. Em outro momento, Holmes não percebe sobre o saco de arroz e a alergia de uma das vítimas, sendo apontada pela Watson, algo nunca acontecido na literatura. Os poderes de observação de Holmes são assombrosos, nunca deixando passar nada, superado apenas por seu irmão Mycroft. Mesmo quando se esforçam para demonstrar a capacidade de Holmes, o efeito é às avessas: Watson o encontra no terraço observando uma colmeia; ele comenta que está escrevendo mentalmente o capítulo 19 de um tratado sobre sua organização e pergunta a ela se deseja ouvir os últimos parágrafos. A intenção é demonstrar a capacidade de processamento e armazenamento do cérebro de Sherlock, mas vai contra o que ele mesmo afirma em “Um estudo em vermelho” que o cérebro “não é um sótão com paredes elásticas” e só armazena o que é vital para exercer sua profissão. Ele chega ao cúmulo de desconhecer noções básicas como, por exemplo, a Terra girar em torno do Sol, por ser irrelevante na resolução de crimes. Outro erro tácito na série “Elementary” é quando Sherlock, sem meios ainda para provar, confronta o assassino sobre o crime. O assassino debocha dele e confessa o que fez, deixando-o furioso. Essa atitude desse Holmes não condiz com os contos, onde Watson escreve não suportar a postura do amigo de esconder todas as informações até ter enredado o culpado em uma armadilha sem escapatória, explicando que “o melhor conspirador é aquele que conspira sozinho”. Portanto, a CBS deveria fazer um favor aos fãs de Sherlock Holmes e cancelar a série com um enorme pedido de desculpas. O fato da obra de Sir Conan Doyle ter caído em domínio público não é motivo para fazer o que bem entendem com um clássico da literatura mundial. Várias séries aproveitaram o conceito do personagem de Holmes como, por exemplo, House e Perception, mas não tiveram a pretensão de afirmar que era o mesmo detetive; a CBS poderia ter criado seu detetive arrogante com grandes capacidades dedutivas e histórico de uso de drogas sem tentar vender a ideia de ele ser o famoso detetive de Londres. Se quiserem fazer isso, sigam o exemplo da BBC e façam isso direito.