Um novo jeito de perceber a realidade.




Escrito por: Rodrigo Basso

O ano de 2012 está repleto de novas séries na TV americana, como Common Law, New Girl, Revolution, The Finder, Smash, Alcatraz, The River e muitas outras, mas a mais promissora foi Perception. A produtora é a TNT, emissora sem muita tradição na produção de séries, que apostou numa inovação em histórias policiais: sai de cena o foco na cena do crime analisada com altíssimas tecnologias e os interrogatórios magistrais; nada de policial durão/ex-militar ou agentes detectores de mentiras; o protagonista dessa série é um professor que irá fazer o telespectador ver a realidade de outra forma.
O argumento da série é um velho clichê: a agente do FBI Kate (Rachael Leigh Cook) solicita a ajuda de seu ex-professor Daniel Pierce (Erick McCormack, de Will & Grace), especialista renomado em neurociência, para desvendar os crimes que a Agência tem dificuldades. Isso já foi visto em várias séries, desde o antigo Arquivo X até Castle e The Mentalist, mas o diferencial de Perception é que o
protagonista é esquizofrênico. Daniel luta contra a doença há anos, sendo a razão de ter dedicado sua carreira ao estudo do funcionamento do cérebro humano, principalmente como a mente percebe o que é real e o que não é real.
Em todos os episódios, Daniel é incomodado por ilusões projetadas pelo seu inconsciente, causando situações onde o professor precisar se esforçar ao máximo para que as pessoas ao seu redor não percebam sua condição, pois, caso descobrissem, ele perderia toda sua credibilidade. No entanto, o que parecia ser um obstáculo para resolver os crimes torna-se sua principal arma: as “pessoas” (ilusões) que Daniel vê é a maneira que seu inconsciente encontra para lhe mostrar coisas que o professor já assimilou, mas não conseguiu ainda ordenar num pensamento lógico. As fantasias criadas pela esquizofrenia lhe dão dicas do que, inconscientemente, ele já descobriu, mas ainda não sabe. Nisso reside a grande sacada da série.
Aumentando o drama da série, o protagonista possui uma alucinação recorrente: Natalie (Kelly Rowan), um amor do passado que o espectador pode apenas conjecturar o que aconteceu. Não se sabe se ela é uma pessoa real, ou se é uma ideia de Daniel, ou se ela já morreu ou apenas foi embora. O que se sabe é que Natalie é a melhor amiga do professor, sendo a grande fonte de informações sobre como ele pensa, muitas vezes repreendendo-o. Ela é uma personagem recorrente da série, não desaparecendo da vida de Daniel como acontece com as outras alucinações quando o crime é solucionado.
Apesar do que foi discutido até aqui, a doença de Daniel é tratada como um problema na série. O professor, avesso aos remédios para controlar sua condição, segue uma dieta rigorosa e possui diversos exercícios e rituais para ocupar sua mente e impedir que a doença o impeça de ser funcional. A esquizofrenia é tratada de uma maneira muito delicada e respeitosa, mostrando os problemas que ela traz ao portador, desmistificando vários preconceitos demonstrados, normalmente, na televisão. Perception trata de uma maneira muito inteligente como o cérebro interpreta o que é a realidade, sendo o ponto alto as discussões do professor na universidade sobre o assunto.
A série terminou sua primeira temporada em setembro com 10 episódios e a TNT já anunciou a continuação para 2013. Vale muito a pena conferir.