Vá fazer alguma coisa da vida (de seu personagem)

Escrito por Kriv Coldblood

      A essência de um jogo de RPG é interpretar a vida de um outro personagem, pensar como ele agiria em determinadas situações, pensar suas motivações, enfim, viver algumas horas por semana a vida de outra pessoa e, claro, se divertir. Imaginamos como esse personagem vê o mundo e, muitas vezes, isso contribui para a forma como os jogadores enxergam o mundo. Mesmo sendo uma história fantástica (no sentido de fantasia), a vida de nosso personagem precisa ser crível, e vida pressupõe movimento. Pedindo a ajuda da Física, movimento é ir do ponto A ao ponto B, mas o que a Física não nos diz é: o que raios é o ponto B!
      O que estou querendo dizer é

que seu personagem precisa de um objetivo, uma meta a alcançar, um “ponto B” onde chegar para colocá-lo em movimento, assim como nós na vida real também precisamos. Todos nós temos objetivos a curto, médio e longo prazo, desde conseguir todos os Troféus em “Infamous 2” e terminar de ler as “Crônicas Saxônicas” à arrumar um emprego melhor e comprar uma casa nova. Os personagens que criamos também têm seus próprios objetivos, que podem ser vencer o torneio da Arena Imperial de Valkaria, se transformar num Lich, ser um grande senhor de terras, construir um reduto para os elfos refugiados ou destruir uma área de Tormenta. Não importa qual, mas isso dá um norte para o personagem e para o Mestre da aventura.

      Um exemplo de como o objetivo ajuda a definir o personagem é na construção da própria ficha. Quando vamos distribuir os pontos nas habilidade, escolher os talentos e perícias temos um objetivo a alcançar com isso. Se vamos jogar com um ladino golpista e que resolve os problemas na lábia, priorizamos a Destreza, Inteligência e Carisma, além de pegar perícias de Ladinagem, Enganação, Furtividade, Diplomacia e outras. Esse ladrão não precisará de Força e Constituição, pois o objetivo dele não é entrar em combate. Logo, já vamos dando uma cara ao personagem, imaginamos um sujeito de fala mansa com um sorriso no canto da boca, que faz amizade fácil para manipular os outros e que confia mas no gume de sua língua do que no da espada. Passando para o psicológico, imaginamos que este ladino gosta de enganar as pessoas e sente prazer em pregar pequenas peças em seus amigos, gostando de ser o cara “esperto” do grupo, podendo até ser um pouco arrogante. Pronto! Temos a base de um personagem para jogar.
      Mas aí vem a pergunta de 64.000 dólares: o que ele vai fazer com essas habilidades e personalidade? Até aqui você definiu o que ele é num mundo estático, pois estamos na fase prévia do jogo e tudo o que ele fez foi inventado somente por você. O personagem não começou a viver ainda para os outros personagens do grupo e para o Mestre. E são suas ações que vão mostrar o personagem para o restante dos jogadores, além de todos os NPC’s do  Mestre, se não ele será conhecido apenas como “o ladrão do grupo”. Claro que você pode dizer que o objetivo de seu personagem é “ser o mais forte do mundo”, no melhor estilo Ryu ou Goku, ou mesmo que ele quer ter montanhas de dinheiro, mas isso ainda não é um objetivo de verdade.
      Poder e dinheiro são “meios”, não “fins”. Você tem que se perguntar o porque seu personagem quer ser tão poderoso/rico, o que ele vai fazer com tudo isso. No mundo real queremos dinheiro e/ou habilidades para realizar nossos sonhos e isso é o mais importante: seja conseguir nossa liberdade, morar sozinho e ser dono do próprio nariz, treinar duro para conseguir vencer um campeonato ou conquistar nosso espaço em nossa área de atuação. Puxa vida, pode ser até mesmo por fama e ser adorado por multidões! Mas queremos algo maior que simplesmente ganhar mais pontos de atributo e talentos: queremos isso para ao menos tentarmos alcançar nossos objetivos.
      Apesar do exemplo anterior emprestado da Física, ir do ponto A ao ponto B não pressupõe uma reta: os objetivos do seu personagem (e os seus também) não devem ser amarras e cegá-lo para outras oportunidades. Lembre-se que precisamos de um objetivo mesmo para poder desviar-se dele. No mundo real temos diversas distrações que nos desviam dos nossos objetivos por algum momento: uma paixão que aparece, uma oportunidade de viajar que nos é oferecida, a obsessão de encontrar uma versão não censurada de Space Pirate Sarah… Assim como irão aparecer outras aventuras não relacionadas com os objetivos de seu personagem, e que ele vai provavelmente aceitar (mesmo porque, se o Mestre quiser rolar aquela Dungeon, você vai jogá-la, meu caro, pode ter certeza que vai).
      Portanto, pense em objetivos e ajude a enriquecer seu personagem, de quebra facilitando a vida do Mestre de RPG. Só os deuses sabem como é difícil mestrar para aventureiros que não querem nada da vida a não ser um lugar quente longe dos zumbis. Você verá como o Mestre (e a vida) vão começar a jogar ferramentas para lhe ajudar a chegar onde você quer.
      E que Nimb role bons dados pra você.