A Síndrome de Salvar o Mundo

por Kriv Coldblood

      Aproveitando o cast Falha Crítica #34, quero falar sobre a criação de campanhas e ajudar um pouco as pessoas que estão querendo mestrar para seus amigos. Todos os livros de RPG tem uma parte destinada ao Mestre para auxiliá-lo na elaboração de aventuras que unidas formam a campanha do grupo de personagens jogadores (PJ), contendo diversas ideias para criar histórias onde os heróis irão salvar o mundo do Grande Vilão/Necromante Maligno/Deus da Destruição/Hordas do Inferno que quer destruir toda a vida existente naquele planeta. Quando vejo isso eu me pergunto: será que toda a saga necessariamente tem que envolver a salvação do universo?
       Para muitos mestres a resposta é um óbvio “SIM!!!”. Os PJs são messias destinados desde o 1º nível a salvar o mundo da devastação, nasceram com a profecia de grandes feitos que irão alterar a história do Reinado, acabando com a Tormenta, matando o Tarrasque ou trazendo os Deuses de volta para Krynn. Para eles, não vale a pena criar uma história que não seja com todos esses elementos e, se for possível, contendo várias explosões e impedindo o ritual satânico no último segundo. Tudo bem, você pode fazer isso, afinal, como foi dito no cast “você só está jogando RPG errado se você não estiver se divertindo”, mas criar histórias assim não é obrigatório.
      Na minha opinião, essa abordagem tem dois problemas: primeiro, você coloca uma responsabilidade imensa nas costas dos PJs logo no início, fazendo com que eles encarem que todas as aventuras que irão participar têm uma profunda ligação com a salvação do mundo. Os personagens passam a levar muito à sério todas as missões e/ou podem achar forçada a ideia que aventureiros iniciantes são responsáveis por coisas tão grandes assim. Segundo, o grupo pode ter uma reação às avessas, não se preocupando com suas ações porque estão predestinados. Isso pode gerar uma falsa sensação de segurança, levando-os a acreditar que não vão morrer ou falhar, pois estão destinados ao sucesso. Afinal, se existe uma profecia dizendo que as ações dos PJs irão salvar o mundo, mesmo eles não sabendo como isso será feito, QUALQUER ação por parte dos personagens direta ou indiretamente irá contribuir para que isso aconteça, correto?
      “Épico” e “grandioso” não precisa envolver a vida de milhares de pessoas ou diversos países/reinos, pode muito bem ser algo local ou que envolve menos pessoas. Um dos melhores filmes de ação que eu conheço envolve um homem querendo salvar UMA garotinha sequestrada (Chamas da Vingança); Sherlock Holmes raramente sai de Londres em suas 60 histórias publicadas; o protagonista de V de Vingança luta contra o tirano de seu país; puxa vida, os Goonies são apenas crianças procurando um tesouro escondido! Existem diversos outros exemplos, mas vocês já entenderam, certo?
      Particularmente, eu prefiro criar histórias locais, onde os PJs irão interferir no destino de uma cidade ou reino. Isso permite mais tempo para desenvolver as localidades e personalidades que eles estão ajudando. O que adianta os jogadores salvarem 20 cidades se não terão tempo de retornar e ver como elas ficaram? Ou você criar toda uma dinâmica de uma vila, criando relações entre o xerife, o clérigo e a rapariga da taverna se os PJs irão passar somente duas noites nela? Por que os personagens iriam se preocupar em fazer missões menores se tem que chegar até o Mestre Arsenal? Melhor ainda: do que adianta eles saberem no primeiro nível que precisam derrotar o Mestre Arsenal se não vão conseguir fazer isso até alcançarem o 20º nível? 
      O que eu quero dizer é que com objetivos menos “épicos” os jogadores terão tempo de se envolverem mais com os problemas, tornando mais emocionante suas vitórias. Se eles eles forem contratados para impedir um feiticeiro em espalhar uma praga numa cidade, isso é apenas um trabalho; mas se eles descobrem o plano de um feiticeiro de espalhar uma praga na cidade de Lestinar, onde vivem os Irmãos Dartirim, ferreiros que os ajudarem a terem as armas que eles possuem, onde vive o clérigo Wilbang que eles salvaram de uma masmorra infestada de zumbis e é a residência da prefeita Kitiara que eles ajudaram a subir no poder, ah meus amigos, isso é pessoal. É como dizem: uma pessoa morrer é uma tragédia; um milhão de pessoas morrerem é uma estatística.