Ranked Match – Pixel Piracy e o Acesso Antecipado




Atraso

Ok, vamos lá. Primeiramente, eu gostaria de pedir desculpa pelo atraso no texto. O semestre começou a já foi assolado por textos sobre o pensamento aristotélico ao mesmo tempo em que viajei para aplicar uma oficina sobre os usos do RPG em sala de aula, então acho que tenho bons argumentos.

Segundamente, o texto de hoje seria sobre Pixel Piracy, e na verdade ainda é. Mas na minha experiência com o jogo ocorreram alguns eventos dignos de nota e discussão, então não falarei apenas sobre o jogo, mas também da peculiar situação em que me encontrei.

Pixel Piracy e o Acesso Antecipado

Bem, Pixel Piracy é um jogo que já está disponível para compra na Steam há um bom tempo. Já tinha capturado minha curiosidade, mas eu não tive tempo (dinheiro) para adquiri-lo em alguma promoção. Honestamente, eu já tenho um backlog imenso de jogos por terminar, então não faria sentido eu comprar mais um jogo e… Ei, o que é isso? 50% de desconto? Comprei! (sim, me julguem).

Pixel Piracy descrevia-se como um Roguelike dos mares, gênero sobre o qual o falei recentemente aqui, o que por si só já me chamou a atenção: se existe uma categoria de jogos que nunca recebeu a atenção e o cuidado merecido foram os jogos de pirata. Eles são beberrões, fanfarrões, cantam, lutam, se aventuram e fazem mais algumas coisas terrivelmente desprezíveis e cruéis, o que obviamente os torna candidatos ideais para bons jogos.

E eu sei o que você deve estar pensando: Ah! Mas e o Assassin’s Creed IV? Era um bom jogo de piratas!

Não! Era um excelente jogo de navegação, que tinha vários elementos da cultura pirata para “agregar valor”. Basicamente foi a ideia de somar o sucesso das mecânicas de navegação do sofrível Assassin’s Creed III com um tema que não possui grandes representantes no universo dos jogos. Usando esse “vazio” combinado com um personagem que, apesar de carismático, não abraçava elementos que pudessem nos fazer crer que se tratava de um pirata.

Pixel Piracy surge nesse espaço (agora não tão vazio) com uma proposta bem mais modesta, mas muito bem executada: ser um pirata que explora um mundo gerado aleatoriamente, tornando cada experiência única. O jogo começa com a criação do pirata e a escolha do “background” do personagem, que concede bônus variados a cada escolha, além do “background” do mundo, que muda a quantidade e o estilo de encontros que podem ocorrer durante a aventura. Você pode ser um pirata cujo pai foi um grande aventureiro, o que lhe rende uma espada poderosa como herança, ou ser filho de beberrão, o que lhe garante um companheiro grátis, já que seu pai tinha muitos amigos. Ou ainda ser filho de mão de vaca medroso, o que lhe garante um trocado a mais para o começo da aventura.

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O jogo possui visuais extremamente simples, gráficos 2D e alguns efeitos mais avançados criam no jogo o clima de maresia que permeará todo o jogo. A riqueza dos detalhes não está na contagem de polígonos ou nos efeitos anisotrópicos, mas no comportamento dos personagens com quem os jogadores interagem, nas falas dos personagens quando interagem entre si ou pela forma como se alimentam e bebem. É importante destacar a quantidade de detalhes que foi pensada pelos criadores do jogo. As trilhas sonoras são divertidas e quase que automaticamente grudam na mente.

Tendo recrutado amigos para as primeira viagens, abre-se um imenso mapa-múndi com vários pontos que podem ser explorados. O objetivo principal do jogo é derrotar quatro piratas lendários, mas a pequena barcaça e os companheiros amadores com que você começa o jogo estão bem distantes desse objetivo. Então você, como bom capitão, deve evoluir sua tropa, ampliar seu navio (ou capturar algum navio maior) e ser o grande pirata de todos os mares!

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E mais uma vez: a quantidade de detalhes e variações que o jogo possibilita agem em favor da experiência. O jogo tem foco em um dos aspectos mais importantes e interessantes dos piratas: a vida no mar. A cada vez que um destino é escolhido, o jogador espera pela chegada enquanto a tripulação interage. Além de cuidar dos pontos de vida da sua equipe, é função do capitão manter a tripulação com o moral alto (através de rum, pagando salários, jogos de cartas, um barco bem enfeitado). Além disso, cada tripulante tem um conjunto de características próprias. Alguns são animados, outros são brigões, outros são depressivos, outros comem demais, outros fazem suas necessidades fisiológicas demais (sim, os piratas literalmente defecam no navio, o que baixa a moral rapidamente). À medida que sua tripulação cresce, esses conflitos aumentam, tornando a administração do navio extremamente desafiadora num misto de frustração e risos. Existe um alto investimento nesses personagens. Você ensina funções a eles, como pescaria, cozinha, limpeza, navegação e isso custa tempo e dinheiro de forma que ver seu segundo melhor pirata morrer, porque provocou um colega, que por sua vez respondeu com um belo tiro de trabuco é extremamente tragicômico.

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As batalhas ocorrem indiretamente, o jogador pode apenas indicar o que quer que seus piratas façam, e depois assistir aos resultados, ou tentar recuar aquele colega mais próximo da morte. Batalhas podem ter grandes reviravoltas por que acidentalmente alguém que quase morria entrou no caminho de uma espadada que não lhe era destinada. E claro, o sangue voa por todo o lado, e é divertido ver personagens pixelizados sendo decapitados.

O modo de construção dos navios também é bem interessante. Alguns equipamentos efetivamente melhoram a navegação do navio, mas em geral as alterações são mais cosméticas, embora a possibilidade de criar livremente possibilita navios que exploram o estilo de jogo para “quebrá-lo” (exploits).

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Apesar do jogo não possuir uma história de fato, todas essas possibilidades aleatórias acabam por criar uma Storyline única em cada experiência com o jogo, o que definitivamente é um grande mérito. Pixel Piracy é um jogo extremamente divertido cheio de detalhes curiosos e vicia rapidamente.

Mas…

Sim, existe um porém. É uma experiência particular, mas também diz respeito ao estado atual do jogo. Pixel Piracy foi o primeiro jogo que comprei em acesso antecipado. Quando se entra na página atual do jogo, ele não se descreve mais como um Roguelike nos mares, mas sim como um jogo de mundo aberto. Realmente, é uma descrição mais justa, pois a única coisa que ele tem em comum com o gênero é a geração aleatória do mundo. Muito pouco. É como chamar Mass Effect de FPS só porque existem armas no jogo.

No acesso antecipado (como o nome sugere) o jogo ainda não está pronto, mas já está em estágio jogável. Existe muito a se implementar, mas consumidor pode receber o jogo não definitivo e ajudar o desenvolvedor com um empurrãozinho financeiro extra. Parece uma troca justa, mas nem sempre é. Não que esse seja o caso de Pixel Piracy. Quando eu comecei experimentar o jogo, eu tinha essa questão em mente. O jogo possuiu diversos bugs, uma proposta de aventura extremamente simples dentro do potencial que ele possui, e ele está realmente cru. Desde o layout até a execução, o jogo possui problemas compreensíveis em um estado beta ou pré-lançamento.

O que acontece é que dois dias depois de eu ter comprado o jogo, ele entrou em 1.0, ou seja, com uma mini atualização para eliminar alguns problemas o jogo entrou em sua versão oficial, de mercado. E aí eu me senti lesado. Não existe garantia nenhuma de que o jogo será melhorado a partir daí, e ainda que existam atualizações diárias não é possível saber se elas estão dentro do processo de produção do jogo, ou se elas são respostas ao mar de apelos que tem tomado os fórums oficiais. Foi um golpe duro na confiança dos consumidores.

Fica o recado: muito cuidado com compras em acesso antecipado! Os produtores seguem atualizando o jogo, e eu espero que ainda atualizem muito. Como potencial, Pixel Piracy  tem tudo para ser um grandes jogos independentes de 2014 (ou de 2015, vai saber quando o jogo vai ficar, de fato, pronto…). Mas nesse momento a compra não é recomendada, por mais que o jogo tenha uma boa proposta e seja divertido como está, ter uma partida prejudicada por bugs, ou a sensação de potencial não utilizado não vale o investimento. Quando rolar um update maior, prometo atualizar este review!

Minha ID tanto no XBOXLIVE quanto na STEAM e na ORIGIN é: guithegood87. Podem me procurar que eu add vocês!