Ranked Match – Shovel Knight




Alerta de Spoiler

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Nota 10/10. Compre o jogo. Tchau.

Fim do Spoiler

 

É, eu sei que tenho que explicar por que esse jogo é merecedor do seu rico dinheirinho, e mais do que isso, explicar a razão pela qual esse jogo é merecedor de uma nota máxima. E sim, eu sei que eu nunca usei um sistema de notas antes (e vou continuar não usando), mas nesse caso achei muito importante expressar que achei esse jogo bom pra caramba e achei que fosse a maneira de expressar isso. Não uso notas por que quero que meu texto aponte elementos o bastante para que o leitor tome sua decisão sem envolver nisso uma escala arbitrária de pontos.

Agora, a análise. Mas antes, uma nota.

Demora [2]

No segundo capítulo da saga da demora em entregar um texto, continuo lutando contra o calendário acadêmico e nem é novembro ainda. Foi mal galera.

A Saga do Cavaleiro da Pá no Chute Inicial

Bem, seria inadequado falar do jogo sem falar de suas origens. Shovel Knight é uma produção do estúdio Yacht Club Games fundada através do Kickstarter, um site onde qualquer pessoa pode ver propostas interessantes e investir do próprio bolso para ver essas ideias progredirem e inclusive obter um item em que investiram em uma edição especial ou com preço abaixo do que seria praticado por seus produtores; qualquer coisa pode ser financiada por esse meio e não existem garantias de que o produto final será entregue, ou entregue como o prometido. E, se tratando de internet, obviamente existe todo o tipo de proposta sombria, absurda, ou simplesmente mentirosa que depois que obtém os fundos, simplesmente desaparece no ar.

Felizmente esse não foi o caso de Shovel Knight, o qual arrecadou 311 mil dólares, bem melhor do que os 75 mil que eles julgavam ser necessários para a produção do jogo. Obviamente, esse dinheiro não foi recebido em vão: os produtores estabeleceram extras que seriam adicionados ao jogo na medida em que novas metas fossem batidas. E eles conseguiram ultrapassar todas!

Enfim, ao jogo

Tendo esclarecido essas informações, vamos ao que interessa: Shovel Knight é um side scroller retrô influenciado por grandes clássicos da era 8-bits, sendo a mais notável das influências Megaman. Definindo-o apenas dessa forma, fica difícil justificar a nota 10, até porque o próprio Megaman não se encontra no momento de mais prestígio de sua história – ou sim, já que ele não tem tido jogos bons, mas apareceu em Smash Bros – mas o jogo, apesar da influência declarada, tem muito a oferecer por si próprio.

Ao invés de um robô titânio com fraqueza a espinhos, Shovel Knight trata de um Cavaleiro num mudo mágico medieval que tinha muito sucesso em suas aventuras ao lado de sua companheira a Shield Knight. Não haviam aventureiros mais triunfantes que os dois, até que em uma dessas aventuras resultou no desaparecimento da Shield Knight. Sem a dupla de heróis, o reino foi tomado por um grupo de vilões e agora cabe ao Shovel Knight sozinho a árdua tarefa de encarar esses inimigos.

Shovel Knight coloca o jogador no controle de um guerreiro que tem como arma uma pá que pode ser usada tanto para ataques, quanto para cavar em áreas específicas e acumular riquezas. O jogo se baseia totalmente na ideia de ser um jogo de Nintendinho, com sua jogabilidade baseada num controle de dois botões. Existem três formas de atacar: o ataque simples, um golpe de pá de curto alcance e baixa velocidade; o salto de pá, que permite ao jogador pular sobre o inimigo usando e cravar a pá sobre ele; e o golpe mágico, que varia em função do item mágico que o jogador estiver carregando. E esse é um dos primeiros aspectos em que o jogo brilha: a abertura do jogo explica brevemente sobre como o Cavaleiro da Pá e a Cavaleira do Escudo eram uma dupla incrível juntos e, embora isso possa passar por sob a percepção do jogador, o jogo mostra isso através do gameplay: o ataque básico é de curto alcance e abre uma janela de ataque considerável para inimigos, enquanto o ataque aéreo é bem mais poderoso mas depende de uma “impulsão” para funcionar. Impulsão essa que vinha de sua companheira. É um detalhe pequeno mas que mostra o poder de se contar uma história através de gameplay de uma forma bem sutil.

Shovel Knight 1

Visualmente, o jogo é muito mais do que se espera de um game retro atualmente. Ele utiliza a quantia certa de tecnologia contemporânea com elementos que remetem aos jogos de Nintendinho. São recursos combinados que deixam o jogo muito mais bonito do que ele seria se fosse lançado em 1988, mas não é um jogo que se diz retrô porque utiliza pixel art: ele é retrô por que seus menus são retrô, sua abertura é retrô, suas escolhas de cenário e maneira como o jogo passa de uma tela pra outra (com interrupções e o jogo deslizando para a próxima parte, como nos primeiros Megamans), a maneira como os monstros e NPCs se movimentam… Tudo isso mergulha os jogadores mais experientes em oceano de nostalgia, sem perder as características que fazem de Shovel Knight um grande jogo.

Shovel Knight 2

No quesito Level Design, o jogo também brilha. Primeiramente, os controles do jogo tem excelente resposta e o controle sobre os movimentos é total, de forma que o jogador não tem escolha a não ser culpar a si mesmo pelos fracassos. As fases tem o balanço certo entre batalhas e saltos em plataformas, tendo desafios que o jogador aprender a superar apenas através da maneira como a fase é disposta. Não há morte injusta. O jogo ensina tudo que o jogador precisa saber com antecedência e sem longos e controversos tutoriais.

Há uma quantidade enorme de “colecionáveis” e áreas secretas que podem ser acessadas de maneira intuitiva, além do jogador ainda pode propor desafios a si mesmo. Os checkpoints do jogo são quebráveis e rendem uma boa quantidade de dinheiro, mas ficam inutilizáveis a partir daí. E as fases têm um tamanho razoável e um chefe no final, adicionando um elemento de risco e recompensa ao jogo.

Além disso, ao melhor estilo Megaman, vários poderes podem ser obtidos com a destruição dos chefes e outros eventos, possuindo uma variedade suficiente para mudar de maneira considerável a forma comose conclui uma fase e os inimigos são derrotadas, adicionando uma camada a mais de complexidade ao jogo. Ainda existem fases desafio para que o jogador acumule mais dinheiro concluindo áreas que só podem ser superadas com determinado poder. Essas áreas são opcionais.

O jogo também soube lidar muito bem com a questão da morte. Atualmente os jogos tem dificuldade de achar um equilíbrio entre os prejuízos de se morrer e a necessidade de que os jogos sejam mais acessíveis a todos. Preocupação que é válida, mas que não deveria significar que todos tivessem uma experiência sem o engajamento da necessidade de viver. Quando o Cavaleiro morre, ele deixa no local de morte uma quantidade considerável de dinheiro e, dependendo do lugar da morte, esse dinheiro pode ser irrecuperável ou ser extremamente trabalhoso. Se o jogador morrer na tentativa de recuperar o dinheiro, ele perderá mais dinheiro e a primeira quantia desaparecerá para sempre.

Musicalmente, Shovel Knight é uma peça rara, inclusive contando com uma trilha sonora que, assim como os visuais, usa do melhor dos dois mundos para mergulha o jogador numa experiência antiga e nova ao mesmo tempo. Cada música tem um impacto perfeito no ambiente das fases e tem aquele ar de empolgação inocente vindo do Heavy Metal 8 bit da série Megaman.

Shovel Knight 3

Mais do que um jogo, Shovel Knight é uma aula de design. Ele merece uma nota máxima porque atende todas as demandas que se propõe, mas mais do que isso, atende a essas demandas com maestria. Num momento em que a nostalgia dos jogadores tem sido explorada com vários jogos medíocres que chamam a atenção por fazer uso de pixel art, as aventuras do Caveleiro da Pá mostram que mais do que uma escolha artística, trabalhar com nostalgia requer entender o que fez as memórias das tardes jogando Megaman valiosas. Tudo é feito com muito carinho, inteligência e personalidade.

Geralmente essa seria a parte em que eu ressaltaria os pontos negativos do jogo. Mas acontece que me sinto seguro para falar que não há ponto negativo. Talvez ele possa não ser da sua preferência, mas os desenvolvedores conseguiram a excelência de acertar o ponto de equilíbrio entre desafio e diversão, visuais e gameplay, simplicidade e complexidade. Digo sem medo de exagerar que Shovel Knight é um dos melhores jogos de 2014. Mesmo que você não tenha uma ligação nostálgica com o jogo, eu igualmente o recomendo, não é a nostalgia que torna esse jogo grandioso. Ele é incrível por seus próprios méritos.

 Shovel Knight 4