Cinetevê – House of Cards




House of Cards, uma série original da NETFLIX, tem sido a grande sensação do momento. Apostando num formato diferente, com temporadas de 13 episódios de 50 à 57 minutos cada, um ator de renome como Kevin Spacey e disponibilização das temporadas de maneira integral (sem ter que aguardar 1 semana por cada episódio), a série tem feito grande sucesso entre os assinantes do serviço de streaming. Isso sem falar no polêmico tema retratado: os bastidores da famosa Casa Branca dos EUA.

A produção se baseia do livro homônimo de Michael Dobbs, com a diferença que o romance se passa na Câmara dos Comuns na Inglaterra e envolve o Primeiro-Ministro. A versão cinematográfica utiliza apenas a ideia de vingança e a abordagem dos bastidores da política, sendo muito diferente da obra original.

A temática da série, por si só, seria o suficiente para garantir seu sucesso. Uma verdadeira crítica ao sistema de Governo dos Estados Unidos e aos seus políticos, House of Cards descortina todo o sistema de alianças, traições e mentiras que ocorre na Casa Branca. Diferente de outras produções que apenas arranham a superfície ou mascaram o quão sujo e baixo se joga nos altos escalões do Congresso, a série mostra manobras de influência que vão desde a dossiê de crimes dos adversários até desvio de verbas para desastres naturais utlizados para programas de campanha eleitoral, sem falar nos assassinatos.

Mas o verdadeiro sucesso da série se deve ao casal de protagonistas Frank (ou Francis) e Claire Underwood, vividos por Kevin Spacey e Robin Wrigth. Num mundo de maquinações tão elaboradas e jogadores tão astutos, somente com a orientação direta de Frank para o telespectador entender tudo o que está acontecendo. Fazendo o papel do narrador no livro, o personagem de Kevin quebra a “quarta parede” e se dirige diretamente ao telespectador, explicando suas manobras, contando coisas do passado, comentando o que acha sobre determinada pessoa ou dando lições de vida. É impressionante o pragmatismo e a falta de escrúpulos do personagem, um verdadeiro déspota que não possui moralidade definida. A apresentação de Frank na série já conta quem é o personagem: diante de um cachorro atropelado e agonizando, o protagonista termina com seu sofrimento com as próprias mãos enquanto encara a câmera, não por misericórdia, mas porque “existe a dor que nos deixa mais forte e existe a dor que simplesmente dói e não tem utilidade”;

Na primeria temporada foi retratado como o líder do partido no Congresso Frank Underwood foi traído pelo então Presidente eleito, o qual lhe havia prometido o cargo de Secretário do Estado. Ao invés de se consumir pela raiva, o deputado com a ajuda de sua mulher Claire eleboram um plano de vingança para ensinar os outros a não quebrarem suas promessas. Com a ajuda da repórter Zoe, o atual Governo é atacado sistematicamente com revelações dos bastidores do poder. Ao final da segunda temporada, após 2 anos de diversas manobras políticas, promessas, chantagens, subornos e 2 assassinatos, Frank se torna o Presidente dos EUA “sem ter tido nenhum voto”, como ele mesmo afirma.

O que permite que um tirano inescrupuloso deste tipo seja tragável pelo público é justamente o recurso de narração da quebra da quarta parede. Inicialmente um meio de substituir o narrador da obra original, a série utilizou esse recurso como um diferencial entre tantas produções. O ato de se dirigir diretamente ao telespectador cria um sentimento de cumplicidade com o personagem, como se ambos fizessem parte daquele jogo, permitindo que o público participe daquele mundo.  Além disso, possibilita discursos do Frank “justificando” suas ações, emitindo seu julgamento dos fatos, suas versões para o ocorrido e abrindo espaços para as célebres frases do personagem que se tornaram quase que aforismos às avessas:

“Dinheiro é mansão no bairro errado, que começa a desmoronar após dez anos. Poder é o velho edifício de pedra, que se mantém de pé por séculos. Não respeito quem não sabe distinguir os dois”

“Um grande homem já disse: tudo é sobre sexo, exceto o sexo. Sexo é sobre poder.”

“Para aqueles de nós escalando até o topo da cadeia alimentar, não pode haver misericórdia. Só há uma regra. Cace, ou seja caçado.”

Isso é a clara representação da afirmação “quando Pedro fala sobre Paulo, descubro mais sobre Pedro do que sobre Paulo”. Mesmo falando sobre ou citando outras pessoas, esses discursos revelam muito mais sobre Frank do que sobre quem ele está falando. Essa intimidade criada com o personagem ajuda a sua aceitação com o público.

Enquanto esse recurso da narrativa ajuda a aceitar melhor o protagonista, o que o redime de verdade é seu amor incondicional e irrestrito à sua mulher. A devoção que o casal tem um ao outro cega o espectador para seus atos criminosos. Afinal, é difícil odiar de verdade alguém que possui um sentimento tão empático quanto o amor. Nem mesmo o tipo de relação aberta e nebulosa que ambos tem sobre sexo parece diminuir o apreço do público: muito mais do que amantes, eles são parceiros que se apoiam de maneira admirável. É palpável que Frank só conseguiu o que conseguiu até hoje devido a Claire: nos momentos de maiores dúvidas e desesperos, sempre é ela quem coloca o marido nos eixos e o lembra do que pode fazer, enquanto dividem um cigarro.

Claire é a outra grande responsável pelo sucesso de House of Cards. Se Frank é uma lança que sempre ataca, sempre vai em frente, reto, direto, mortal, Claire é o escudo: intransponível, firme, que dá suporte e aguenta o que for preciso. É incrível a atuação de Robin neste papel. Tudo na personagem reflete ao rochedo que esta mulher é: a postura impecável, digna, altiva; os movimentos retos, suaves, contidos; o tom de voz firme, o qual nunca se eleva nem se rebaixa; a autoridade nata, não imposta. Até mesmo diante de escândalos de adultério ela não perde a calma e contorna a situação sem a ajuda do marido. Como o próprio Frank diz “Claire tem 10cm de espessura na armadura” e Zoe mesmo afirma quando usa suas roupas que “parece que está vestindo ferro”.

Esses dois elementos são tão importantes para o sucesso do personagem de Kevin Spacey que é possível constatar na terceira temporada que sua diminuição é um claro indicativo de sua derrocada. Enquanto era “pedra”, o congressista estava em uma posição previlegiada e em franca ascensão, indo direto ao topo: a Presidência. Mas o então presidente percebeu o quanto é difícil se tornar “vidraça”. A quantidade de erros e a impopularidade de Frank no poder na Casa Branca é um deleite para aqueles que não gostam do personagem. Diversas decisões imprudentes e medidas desesperadas (principalmente com o Presidente da Rússia) colocaram o protagonista num grande índice de rejeição dos eleitores. Seu comportamento com seus subordinados lhe rendeu várias deserções, muitas delas lhe custando caro. Até mesmo o público é alvo disso, sendo a maioria dos pouquíssimos diálogos feitos de maneira ríspida.

É interessante ressaltar o quanto o desempenho de Frank tem relação com seu casamento. A crise que ele e Claire sofrem reflete diretamente no Governo dos EUA. Isso se comprova quando a única vitória verdadeira que o casal consegue neste temporada (a votação na ONU e a contenção da Rússia no caso do Vale do Jordão) deu-se justamente quando se reconciliam e planejam juntos. Outro fato é durante a campanha de eleição quando Frank afirma que a vantagem que têm sobre sua adversária é que ele possui a Claire.

O final da terceira temporada, com Claire pedindo o divórcio e sem nenhum comentário de Frank para os telespectadores serve como um termometro de quanto o personagem está caindo num poço que ele mesmo cavou. Resta agora aguardar para ver o quanto a Netflix irá estender a série, pois o final da temporada deixou tudo está em uma suspensão extremamente tensa.