EM PAUTA – Que tipo de música você curte?

Nos saudosos tempos em que Pelados em Santos era hit nacional…

 

“-Oi, td bem?

-oi td e vc

-Tbm… tc de onde?

-Capivarinha do Norte, e vc?

-Capivarinha do Sul longe hein

-Pois é! Que tipo de música você curte?

-sou ecletico mais odeio pagode, axé e sertanojo

-Ok.”

 

Pááára tudo! Como é que um indivíduo ousou proferir um discurso deste num momento em que sua imagem é construída, num xavequinho virtual que surge desde os tempos remotos de ICQs e MSNs, somente através de palavras escritas e talvez uma foto improvisada na webcam? Numa época em que internet discada (após a derrocada de Cinderela) não proporcionava ao pobre-diabo uma possível sedução física através de videoconferências de alta resolução?

Sim, eu tenho a resposta, porque já fui dessas. Fui uma rockeirinha hater. E tenho uma palavra que qualifica esse indivíduo: juvenil. Fiz muito disso na minha adolescência, e talvez por compaixão a um ser mergulhado em uma profusão de hormônios, dúvidas e questionamentos, acho razoável. Aos juvenis. Somente.

Há diversas formas de definir uma preferência musical, mas falar do que não se gosta pode não ser a melhor delas. Através dessa fala, saberemos apenas o caminho que esse sujeito não tomaria, e nos restarão outras tantas estradas possíveis nessa ecleticidade musical que poderiam ser elegidas e que daria inicio, talvez, a uma longa via de afinidades, em que as valas gramaticais não pareceriam tão profundas frente as emocionantes ladeiras de empatia.

Em uma realidade paralela, esse indivíduo foi mais feliz com sua resposta. Ele escreveu: “curto Guns”. Seu interlocutor, fã de Nirvana, soltou em seguida: “Putz, que vacilão. Axl é um loser, o Kurt é muito mais daora!” Não caminhavam no mesmo sentido, mas a via, afortunadamente, era a mesma. Não deu em casamento, mas tiveram longos debates grungeanos.

Sortudo mesmo foi o da terceira realidade, que amava Gal e Chico. Não eram os preferidos de seu companheiro virtual, mas casava muito bem com Elis e Caetano, que segundo este eram inigualáveis. Estes foram morar numa Casa no Campo, onde guardaram os amigos, os discos e livros e nada mais.

E, mire veja, em nenhum momento se repudiou os clássicos do carnaval soteropolitano, porque aquela estrada já estava há muito para trás.

 

– Harumi

 

“Living easy, livin’ free
Season ticket, on a one, way ride
Asking nothing, leave me be
Taking everything in my stride
Don’t need reason, don’t need rhyme
Ain’t nothing I would rather do
Going down, party time
My friends are gonna be there too
I’m on the highway to hell”

 

AC/DC – Highway to Hell